quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Bailarina e a Estátua

          A Bailarina e a Estátua

E se meu corpo se expandisse para além dos limites da pele
Se ele se espalhasse para além do limite dos olhos...
                                                        [do apetite dos olhos
De tais olhos que não mais distinguem o que é corpo humano
                                                                                   [do que é estátua
O que é vivo do que é pintura em óleo
O que é pele do que é fixidez do mármore

E se nenhuma roupa lhe desse mais caimento.
À vontade pela rua
Por onde poderia caminhar meu corpo?
Minha mente o acompanharia?
E seria quem a extensão de quem?

Se o corpo fala:
por onde ele grita... por onde suplica
por onde ele chama quando quer colo

E se fala, quando ele se cala
Quando canta

O corpo antes da roupa...
O corpo antes da nomeação
O corpo de dentro, o corpo de fora
O corpo que sente
O corpo que é visto...

E quanto ao corpo enrijecido pela falta de outro corpo:
Atrofiado, encouraçado... mudo!
Mudo na rigidez dos musculos
E em atrofias de gestos, e falta de música.

Se o corpo verdadeiramente fala, quando é que ele mente.
Se é que para ele é possível mentir!

O comprimento dos braços abertos de um homem é igual à sua altura
O comprimento da orelha é um terço do disfarce.

E as palavras, que como pedras lançadas,
esfolam os corpos que não cabem nas vitrines vivas dos slogans 
                                                                                                   [fixos, exatos
                                                                                                       [rígidos, regulados
Que escoriam a pele dos corpos que não se enquadram
                                                                          [nas explicações precisas,
                                                                                [determinadas e estáticas.

E os corpos obedientes, submissos... plásticos,
construídos nas linhas de produção
Que adestrados curvam-se facilmente para caberem...
                                                              [estrangulados e asfixiados
nos horizontes de curto prazo das grifes em qualquer estação

E os corpos livres de moldes:
versos brancos   fluxo de consciência   livre associação


A bailarina

A estátua

E os corpos seriados e impessoais das multidões!
Que vem, e que vão
E que se esbarram, e não olham para trás

E se todo corpo fosse apenas corpo.
Sem mas.
Sem porém.
Sem pergunta.

O corpo que não mais pulsa:
Sem contato, sem movimento!
Para quem ele ainda é corpo?
Para quem ele ainda pulsa?

E os corpos dos meninos e meninas mutilados nos sisais!?
Dos meninos e meninas explorados nas esquinas e nos faróis!?

O corpo erra?
O corpo peca?

E os corpos dos Severinos que ressecam nos sertões?
Corpos da sede e da seca!
E os corpos da Etiópia?
Da Etiópia da África,
e de todas as Etiópias do mundo
Corpos da miséria e da fome!
... das moscas que por ali rodeiam
E os corpos dos que tomam sol nas férias de verão?

O que cultua o culto ao corpo(?)

O corpo
A alma
O corpo, a arma.

A meta. O alvo. O escudo.

Qual roupa veste a alma?
Do que é feita a tecitura do seu tecido.

E os corpos amordaçados, torturados e mortos
E os corpos dos amantes e todo o seu improviso espontâneo
Os corpos que aos milhares compartilharam as valas comuns
E os corpos que quando dançam quase levitam
E o que dizer sobre os corpos que nas calçadas se enfileiram
                                                                              [cobertos de sereno,
                                                                                  [coberto de outono
E sobre os corpos dos desaparecidos que há muito já adormeceram
O que dizer?

A quem interessa os segredos da Vitória?

Quando o corpo se tornou um mal entendido
E quando toda nudez começou a ser castigada
A lágrima é o sentir que não mais cabe no corpo?
Quando o corpo se tornou um perseguido, um fugitivo
                                                                         [um prisioneiro

Deixa caminhar
Dexa dançar o corpo simples e absoluto guardado antes das definições
O corpo em estado de metáfora
O corpo inteiro
De corpo e alma
O corpo polissêmico
Dicotomizado

Sem
Todo corpo nasce

                                               Dedicado a José Ângelo Gaiarsa


Poema elaborado para avaliação parcial da disciplina "Corpo, Cultura e Linguagem", da Universidade Federal de São Paulo Campus Guarulhos, sob a orientação da Profa Dra Fernanda Miranda Cruz.

3 comentários:

  1. Cleder! Meus sinceros parabéns!!!
    Sempre que leio os seus textos fico estática, eles são de um lirismo sem igual! O que vem a mente são as imagens - e dentro de mim o pulsar forte das palavras que tocam o coracão. Neste poema o que vi foi uma pedra de mármore se tornando uma bailarina... Vi o corpo saindo da pedra (Sinta! Veja! Que imagem bonita!!!). Nú. Límpido. Claro. Rígido e suave - como a postura da bailarina.
    "O corpo que expande para além dos limites da pele", para além dos limites do mármore...
    Estou sem palavras porque o sentimento é inefável. Mais uma vez, parabéns! És mesmo um distinto poeta!
    Fala de poesia sem ignorar o social. Mescla a imaginacão e a realidade, a fantasia e o mundo exterior.
    Beijos dessa sua amiga.

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  2. Belo poema Cleder! Marca de forma brilhante o movimento contraditório entre a bailarina e a estatua, entre a leveza do movimento espontâneo e a rigidez que o corpo pode assumir, tanto o corpo do indivíduo em relação a si mesmo, quanto no convívio social e nas relações interpessoais. Filosófico e pertinente. Possui musicalidade e esmero na construção de cenários. Adorei! Lindo mesmo! Beijos

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  3. Antes, o parabenizo pelo fascinante poema! Contundente e denso como o chumbo, e ao mesmo tempo leve feito dança! De arrebatadora beleza, sem dúvida!
    (...) E os corpos da Etiópia?
    Da Etiópia da África,
    e de todas as Etiópias do mundo
    Corpos da miséria e da fome!
    ... das moscas que por ali rodeiam.
    Que força tem essa passagem! Um primor de poema. Lindo! Obrigada!

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